Escutar e abraçar



Há alguns dias fui levar minha avó para vacinar, como ela não anda, ela e minha mãe ficaram no carro, enquanto eu fui na fila da vacinação, solicitar que a enfermeira fosse até o carro para vaciná-la.

Naquela fila, estava eu e uma senhora, aparentemente de uns sessenta e poucos anos, ela também esperava pela enfermeira e estava com o marido no carro. Ele também não andava e, precisava que a enfermeira fosse até lá.

Em pouco tempo de conversa, esta senhora, que eu vou chamar de Maria, pois não deu tempo de perguntar o nome dela, e, particularmente, acho que Maria é um nome que representa um pouco de todes nós, pessoas. Foi então que na fila da vacinação aquela mulher desconhecida, começou a conversar comigo. Maria, falou sobre sua vida, seu marido, disse que também iria se vacinar na próxima semana, mas em outro posto de saúde. Porém, o que me impactou foi que em tão pouco tempo de conversa, as lágrimas começaram a escorrer dos seus olhos, e ela começou a dizer o quanto estava triste por ter que ficar isolada, longe dos filhos e das pessoas que ela costumava conversar no seu dia a dia. Ela chorou por alguns minutos, confesso que não tive muita ação, nestes tempos em que não podemos nos aproximar dos outros de forma ativa, como um abraço ou um aperto de mão. Enquanto eu a escutava, senti vontade de abraçá-la, mas, isso não fora possível. Contudo, naqueles minutos com a dona Maria eu percebi a importância de abraçar com os ouvidos e o olhar, poder escutar o sofrimento daquela senhora é ao mesmo tempo uma oportunidade de escutar o sofrimento de várias outras pessoas que choram por motivos parecidos. Choram por estar longe daqueles que amam, daqueles que a acolhem, escutam ou choram por medo do desconhecido.

Este episódio, me fez pensar com ainda mais força que escutar também é uma forma de abraçar e acolher alguém. Já que não podemos ter muito contato físico devido a pandemia, somos levados a refletir sobre novas maneiras de demonstrar afeto as pessoas, talvez escutar seja uma delas.

Pensando nisso, lembrei de um trecho de Clarice Lispector, "Escuta: eu te deixo ser, deixa-me ser então". Escutar pode ser uma forma de permitir que o outro exista com sua dor, medos e anseios.



Por Nathália Lopes

Psicóloga e humana

Acredita que escutar seja uma forma de abraçar as pessoas


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